Friday, May 3, 2013

À espera na pequena estação de Biarritz

Lá fora o ar está húmido e gélido, quase parece Inverno. O sol já há muito se pôs e a chuva cessou por uns momentos. Dentro da pequena estação as pessoas abrigam-se do frio que trespassa as almas. De vez em quando, o vento entra sem ser convidado e arrepia as pessoas que ali esperam. Esperam minutos, esperam horas…

Três jovens estão sentadas num banco e divertem-se tirando fotografias umas às outras. O riso delas soa como o de crianças. Num canto está uma ruiva com a cara pintada de sardas, navegando dentro das páginas do livro que lê, absorta de toda e qualquer atmosfera presente naquela estação. Ela muito provavelmente é francesa, ou não, não sei. Noutro canto não muito distante está um rapaz. Não dá para imaginar a sua nacionalidade, pode ser de qualquer lugar. Ao contrário da ruiva que espera há apenas alguns minutos, ele espera já faz horas. Remexe-se inquieto. Pára de ouvir a música que ouvia há já algum tempo. Lê o jornal, relê. Está cansado da espera e observa, não a estação, mas o mundo à sua volta e se interroga sobre as suas decisões e os caminhos que tomou. No canto oposto está uma família. Esperam há poucos minutos. O pai toca gaita para entreter as crianças que, como todas as crianças, estão irrequietas. São franceses sem dúvida. Regressam à casa depois de uma viagem tranquila. Ninguém parece aperceber-se do frio, excepto um ou outro aconchego ao casaco.

No centro está um casal de velhinhos. Cada um lê a sua revista e espera. Esperam por uma vida que não veio, por uma oportunidade que falhou. Já não se falam. Provavelmente por causa dos anos que já devem estar juntos não têm mais nada a dizer um ao outro. Ao lado deles está um grupo de amigas. Discutem alegremente para onde irão e o que vão fazer a seguir. O cansaço é já evidente nos seus rostos e nos seus corpos. Mas elas pouco se importam. E tão pouco se importam de esperar minutos, horas ou dias.

E assim vão passando as horas nesta estação, que para mim tornou-se gélida e esfria os corações. Contudo, ninguém parece ter dado conta disso. As meninas continuam a tirar fotografias e a rirem como se fosse a coisa mais divertida do mundo. A ruiva continua inerte na sua viagem pelas linhas, palavras e frases do seu romance. O rapaz voltou à sua música e espera. A família conversa, deixando os seus pensamentos deambularem pelas ruas desertas dessa cidade. Assim como os velhos, que continuam sem se falarem, imaginando como seria a vida se a tivessem vivido de forma diferente. Olham para o grupo de jovens ao lado deles com um certo desprezo e indiferença, mas ao mesmo tempo com alguma inveja de não terem tido coragem de se aventurarem por caminhos menos cómodos. 

E eu espero sentada num canto dessa estação e observo todas as pessoas que completam esse quadro. Fantasio e espero… agora já só falta uma hora. 


Coco de Umbigada: uma cultura centenária em ação na comunidade de Guadalupe


Alguém já ouviu falar de Coco de Umbigada? E de Sambada de Coco…? Vamos recapitular então....
O coco é um ritmo típico do nordeste do Brasil, de influência africana e indígena, com músicas de letras simples e que tira partido da zabumba dos mestres percussionistas, sendo acompanhado por dança de roda.
O coco é, assim, um forte elemento da cultura de raiz das comunidades afro-brasileiras do nordeste: nasceu nos quilombos e se proliferou por todo o nordeste, adquirindo diferentes nomes e estilos, incorporando as caraterísitcas e os elementos dos lugares por onde se alastrava. Por isso, hoje em dia, existe diferentes tipos de coco, como coco de roda, coco de salão, coco de rojão, coco de furada, coco de bolada, coco de pisada, coco de umbigada.
Em Olinda, no bairro de Guadalupe o coco é de Umbigada. Beth de Oxum e sua família procuram manter vivas as suas próprias raízes, uma herança de Paratibe, a aldeia de onde provem o marido de Beth, o músico Quinho Caetés.
O nome Umbigada vem da dança, que antes era dançada de forma a que as barrigas batessem uma na outra, umbigo com umbigo. Hoje em dia, apenas simulam o movimento, marcando o ritmo da sambada com o sapateado dos pés.
Com o tempo a tradição de fazer sambadas vem perdendo o protagonismo habitual das pequenas aldeias e comunidades, na maioria das vezes pela própria falta de identificação com essa cultura popular. Numa época cada vez mais modernizada, trocamos as aldeias pelas cidades, mas estas carregam consigo o peso dos preconceitos sociais de uma sociedade alimentada maioritariamente por novelas da televisão e por sonhos capitalistas de consumo.
A Sambada de Coco foi a primeira e hoje ainda é a maior ação do Centro Cultural Coco de Umbigada, e trás essa brincadeira popular centenária de volta às ruas.
 “Através dessa nossa brincadeira de rua, levamos a expressão da ancestralidade e da memória de nosso terreiro, consolidando a auto-estima de nossa comunidade como protagonista das políticas e das realizações de sua própria cultura. Esse ritual, que ocorre em todos os primeiros sábados de cada mês, é também nossa principal ferramenta de articulação e diálogo com a comunidade e outros sectores da sociedade, pois é frequentada por pessoas de todas as origens e lugares.”, explica Mãe Beth de Oxum, impulsionadora do projeto. 
A Sambada de Coco é apresentada no estilo família, no beco onde fica o terreiro de Beth, agregando as crianças da comunidade a uma música que retrata a espiritualidade e a ancestralidade.  Ela lidera a festa, cantando, tocando e emanando muito poder e sabedoria como musicista e ativista social. Junto com seu marido, também ele percussionista, e seus filhos Oxaguiam, Yalodê, Mayra Akarê e Inayê, eles articulam toda a família e a comunidade numa festa que atrai muitos residentes e turistas, que desde 1998 cresce cada vez mais.
Tanto, que, em 2004, as ações de preservação da brincadeira do Coco foram legitimadas pelo Ministério da Cultura, que reconheceu o Terreiro da Umbigada como Ponto de Cultura, recebendo um kit de equipamentos de informática e de edição para registros audiovisuais. O Ministério das Comunicações possibilitou por sua vez o acesso à banda larga, através do programa GESAC (Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão). 
Assim, e desde o início, o Ponto de Cultura serve como ponto de encontro da comunidade e empoderamento do ser humano e cidadão, através da valorização e difusão da cultura popular.. Oferece cursos de alfabetização digital, promove o software livre e funciona como tele-centro de segunda-feira à sábado. Abrange também uma rádio livre, a Rádio Amnésia, que passa músicas de raiz, com toda a mistura que tem em Pernambuco e no Brasil.
Beth de Oxum coordena as ações do Centro, assim como a sua casa e seu terreiro. No Ponto de Cultura muitos jovens, de vários lugares, mas que fazem parte da família, ajudam Beth com os projetos, alguns nas áreas de comunicação/edição de vídeos e documentários, outras na parte musical e artística.
Antigamente, para Beth tecnologia e software livre eram palavras que não pertenciam ao seu vocabulário diário. Hoje em dia ela reconhece a necessidade de usar as ferramentas e oportunidades oferecidas pelas políticas públicas, mas sem perder sua ligação com a comunidade nem a ancestralidade.  Ressalta também a importância do registro (e divulgação, muitas coisas estão no youtube) em áudio e vídeo das expressões culturais de sua cultura e da troca de ideias com outros grupos e terreiros.
Numa acção itinerante, o Ponto de Cultura gravou 10 CDs de vários grupos nordestinos de cultura de matriz africana, entre terreiros e quilombos.  Hoje em dia viajam por todo o Brasil. Ora para se apresentarem com a Sambada de Coco, ora para dar oficinas de música. Outras vezes Beth de Oxum viaja para dar conferências e espalhar a sua mensagem de ativista social.
E além de tudo isso conseguiram que aquela pequena comunidade de Guadalupe, situada na charmosa parte histórica de Olinda, município da região metropolitana de Recife, tivesse a sua própria inserção no mundo digital evoluindo de mãos dadas com a difusão dos ensinamentos da sua cultura de raiz, baseada em conceitos como família, disciplina, respeito e humildade. E claro, amor.
O programa do governo, no entanto, não garante a sustentabilidade do Ponto de Cultura. Simplesmente dá ferramentas que potencializem o que já existe e que deve ser auto-gerido e auto-sustentado.
O enorme desafio, para todos os Pontos de Cultura de todo o país, que após o primeiro empurrão dado com as novas ferramentas, que muitas vezes até nem sabem usar, é mesmo a sustentabilidade financeira. Uma vez que envolve não só o sustento de projetos e ações, como também porque pretende assumir protagonismo na geração de trabalho e renda nas comunidades, para assim possibilitar também um sustento social, paralelo ao trabalho artístico e espiritual que já fazem.
Um sonho de mãe Beth é construir um centro para as jovens grávidas e mães da comunidade. Um centro que promova informação, ajuda e acompanhamento, uma vez que as histórias daquele bairro, são parecidas com as de muitos outros bairros brasileiros, onde as meninas são mães a partir dos 17 anos de idade, às vezes até mais jovens, sem muita estabilidade econômica ou familiar. Mas este por enquanto é apenas mais um sonho, de muitos que urgem para serem concretizados, manifestados.
 No entanto, mais apoios, especialmente financeiros e de pessoal especializado, disposto também a ensinar enquanto produz, seriam necessários para concretizar todos os sonhos daquela grande família de Guadalupe.
Ainda assim, o Coco de Umbigada e a Sambada de Coco servem como portais para a intervenção social, para alfabetização digital, onde mestres anônimos da cultura popular do Coco podem construir uma relação de convívio harmônico do passado com o presente, na perspectiva de manutenção e continuidade com a brincadeira no futuro.



(créditos das fotos)
foto 1: sambadadecoco.wordpress.com
foto 2: oficinainclusaodigital.org.br

Friday, May 8, 2009

O silêncio turbulento que anuncia a tempestade

Às vezes, do nada, o céu fica negro e se enche de nuvens densas e escuras. O silêncio que chega a estremecer o coração faz o ar tenso e anuncia-se a tempestade. Não demora muito e vêem-se os relâmpagos claros iluminando o céu. 
A pouco e pouco ela se aproxima e ao fundo ouvem-se os trovões, como num coro de música. Se fechar os olhos consigo encaixar perfeitamente uma melodia de uma tragédia clássica. 
O quadro é perfeito: a montanha, o lago, a chuva. Gotas gordas caem pesadamente e o vento levanta o pouco de terra que ainda não virou lama.
É a terceira vez que cai uma tempestade dessas desde que estou em Pokhara. Mas a tensão que se sente quando algo de errado está para acontecer me acompanha desde o momento em que cruzei a fronteira da Índia com o Nepal. Uma certa calma inquieta no ar e nas pessoas, reflete a situação política atual do país.
Entender o que está acontecendo não é fácil. As informações da maioria das conversas com os nativos são um tanto confusas se não mesmo contraditórias.
Em 2001, o rei Birenda e quase todos os membros da família real foram assassinados, supostamente pelo príncipe herdeiro, Dipendra, que se suicidou. Na sequência o irmão do rei, Gyanendra assumiu o  poder e manteve uma monarquia constitucional até 2008, com uma crescente insatisfação popular com o seu autoritarismo. Após acordo entre partidos políticos e fações guerrilheiras rebeldes, o Nepal tornou-se uma república parlamentarista em 2008.

Desde os anos 90 que os Maoistas aumentam o seu poder, com pequenas insurgências militares e com filosofia de guerrilha, leninismo e maoismo. Atualmente o primeiro-ministro é o líder dessa luta de anos, Prachanda.
No dia 04 de Maio, Prachanda tentou demitir o chefe do exército, Rookmangud Katawal, mas este se recusou a deixar o cargo.
A última semana foi marcada por constantes manifestações tanto aqui em Pokhara, como em Katmandu.

A atmosfera está calma,  mas há qualquer coisa no ar que torna esse silêncio turbulento, como aquele que antecipa a tempestade.


Nos últimos meses tem havido mais cortes de energia que os últimos registrados. As pessoas ficam em casa, isoladas, sem comunicação, sem televisão, sem informação.. O custo de vida para os turistas aumentou desde o último ano. A mudança do valor do visto e a valorização do dollar apontam para uma maior presença dos EUA no país. O timing não poderia ser mais perfeito: a instabilidade política, social, cultual, o tal silêncio turbulento.

Cada vez mais me convenço que coincidências não existem e gostava de tentar entender mais porquês. É certo que a China é aqui ao lado.... 
Mas é isso, por enquanto tento entender porquê sinto essa tensão no ar, este céu pesado. Pode ser que seja só o fato de as monções estarem a se aproximar. Ou pode ser que algo esteja para acontecer... só o tempo dirá.

Pokhara - Nepal 2009


2014 - atualização
Prachanda demitiu o chefe do exército a 03 de Maio de 2009. Isso levou a uma vaga de manifestações por todo o Nepal.
Pouco tempo depois, o então presidente, Ram Baran Yadav, vetou a decisão de Prachanda e recolocou Katawal no cargo de chefe do exército. Em resposta a isso, Prachanda resignou o seu cargo de Primeiro-Ministro, alegando que esta decisão seria para manter a paz, que estava fragilmente em vigor desde 2006. O governo nepalês entrou em colapso.
Em 2012 finalmente os Estados Unidos anunciaram que removeram formalmente o governo do Nepal (UCPN-M) da sua lista de "grupos terroristas globais". Ainda assim a conjuntura política do Nepal continua incerta e os interesses tanto da China, da Índia como dos EUA continuam por se esclarecer.

Saturday, April 11, 2009

Rainbow Gathering

Sonhos que se sonham apaixonadamente são possíveis de conquistar o mundo. Momentos partilhados na fogueira perdidos em alguma montanha podem mudar a vida de alguns. Paixões vividas com alma criam belas histórias de amor.
A energia está estática. Quase se sentem as faíscas no ar e está quente, apesar do frio começar a gelar os ossos. Vejo castanhos e vermelhos. Azul e laranja. Uma multitude de espíritos e seres viajantes em harmonia com eles mesmos. Ou a procura disso. Ouvir falar de vozes do passado a contarem memórias antigas. Rir as risadas da alma e ler as histórias no caminho perdido...

A lua, gorda e torta, sorrindo vai se mostrando por entre as árvores quando a noite já vai longa. De repente ouço trovões ao fundo. Ou o grito de um ser estranho. Aqui perto o rio flui constante, matendo sempre a música, onde nunca há silêncio mas onde há quietude silenciosa. Mística. No outro dia foi a chuva...

Sentir o corpo cansado, os pulmões gritando por mais oxigênio, as mãos frias enrolando mais um charro.
A alma está numa serenidade perigosa. O pensamento cria asas e voa para lugares inalcançáveis. Formas geométricas coloridas e psicadélicas dão espaço para mandalas estilizadas e em caleidoscópio. Cores e movimento. Não pára. Do nada, um sorriso, um gesto, uma risada. Vontade de entender o que vai nessa alma. Escuto.
Mais um dia, mais um espaço, mais uma viagem. Café com leite. Hmmm. =)


Índia 2009