Hoje foi um dia intenso e estranho! Acordei cedo, como sempre. com a mãe de Dolkar cantarolando (agora sei que não é música, mas sim oração! ehehe), comi o café da manhã e me preparei para ir à Jonson ver se a autorização para eu ficar aqui saiu.
Uma hora a pé tentando meditar na beleza deste lugar e refletindo sobre a minha paciência e tolerância para com os outros.
Decidi ir direta ao office antes de fazer qualquer outra coisa. À caminho me pararam num police check point. "Namastê. Show me your permit". ("Olá, me mostre a sua permissão" - estou a 4 mil metros de altitude dentro do Anapurna Circuit, um circuito famoso de trekking para o qual os turistas precisam dessa suposta permissão, no valor de 4 mil rupias nepalesas, mas como eu não fui fazer o trekking e não subi com guias e agências turísticas, e sim com ônibus de nativos, pelo caminho dos nativos, em nenhum momento precisei desse documento).
Decidi ir direta ao office antes de fazer qualquer outra coisa. À caminho me pararam num police check point. "Namastê. Show me your permit". ("Olá, me mostre a sua permissão" - estou a 4 mil metros de altitude dentro do Anapurna Circuit, um circuito famoso de trekking para o qual os turistas precisam dessa suposta permissão, no valor de 4 mil rupias nepalesas, mas como eu não fui fazer o trekking e não subi com guias e agências turísticas, e sim com ônibus de nativos, pelo caminho dos nativos, em nenhum momento precisei desse documento).
Bom, respirei fundo e tentei explicar que estava indo ao posto do Governo para receber a resposta sobre uma autorização de ficar no campo de refugiados tibetanos. Expliquei que não estava ali para o trekking e sim para uma resposta do governo nepalês.
Mesmo assim, sem chance. A grosseria e a rispidez do policial, que não fez nenhum esforço para compreender que estava com outras intenções começou a me abalar e a me intimidar até. A tristeza e o desespero começaram a invadir o meu coração. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, sem a minha autorização.
Saí da polícia, voltando para trás tentando não deixar que a raiva entrasse no meu coração, mas com uma enorme sensação de frustração.
Decidi tomar um café para colocar as ideias no lugar. Afinal não podia voltar ao campo sem a resposta do governo nepalês, mas sem o tal papel não conseguiria passar do check point da polícia. Fui para um cafézinho pequenino e bem simples e sentei com um café numa das mesas.
Pouco tempo depois de estar ali sentada veio um tibetano, que à princípio pensei que fosse nepalês, conversar comigo. "Você está bem? Porquê chorou?". Eu devia estar o rosto ainda vermelho de raiva e das lágrimas de frustração. Contei-lhe então o porquê, explicando que precisava chegar no escritório do governo nepalês para receber essa resposta para poder continuar no campo de refugiados. Abri meu coração a ele, nem sei bem porquê. E, emotiva como sou, no meio de tudo o que eu falava, as lágrimas desciam, novamente sem serem convidadas.
Pouco tempo depois de estar ali sentada veio um tibetano, que à princípio pensei que fosse nepalês, conversar comigo. "Você está bem? Porquê chorou?". Eu devia estar o rosto ainda vermelho de raiva e das lágrimas de frustração. Contei-lhe então o porquê, explicando que precisava chegar no escritório do governo nepalês para receber essa resposta para poder continuar no campo de refugiados. Abri meu coração a ele, nem sei bem porquê. E, emotiva como sou, no meio de tudo o que eu falava, as lágrimas desciam, novamente sem serem convidadas.
No fim da nossa conversa já uns 3 ou 4 nativos participavam, dando palpites e opiniões. Por fim, disseram que me levariam até ao check point onde intercederiam por mim. Então lá fomos nós, eu, escoltada por mais quatros homens pequeninos e bondosos. Chegamos no check point e eles falaram com o policial que com cara feia me deixou passar.
Consegui chegar no tal do office. Meu coração estava acelerado, mas estava feliz por ter conseguido chegar até ali.
A sala era grande, bem grande e tinha só uma secretária bem no meio. Atrás dela um homem bem pequeno, quase só dava para ver os seus olhinhos. Uns dois guardas ficavam em pé do lado da secretária em postura de sentinela.
Me aproximei e falei que tinha pedido autorização para ficar no campo de refugiados, onde trabalharia com as crianças durante um mês. Falei o quanto admirava aquele povo e que sentia que poderia contribuir bastante com a minha presença ali. E que estava ali para saber da resposta do governo nepalês.
O homem fez um baralho estranho que parecia ser uma risada irônica, não tenho bem a certeza, e disse: "O que você, uma turista branca, acha que pode fazer por um povo atrasado como eles? Pra começar você teria que pagar o documento de permissão do circuito. Depois teria que pagar uma propina boa para mim", e fez aquele barulho irritante de novo.
Comecei a pensar em quanto ficaria aquela brincadeira, mas estava até disposta a pagar, pois sabia que uma experiência assim não tem preço.
Mas aí ele continuou: "Mas mesmo que a propina fosse boa, não posso te deixar ficar. Hoje em dia são as ONGs que fazem o voluntariado e mandam os turistas pra cá. E a propina que eles me pagam é muuuuuuuito boa. Por isso, desça até Pokhara e compre o seu «passaporte» na ONG para fazer voluntariado. E não se esqueça de trazer a minha propina extra." . Sinistro.
Comecei a pensar em quanto ficaria aquela brincadeira, mas estava até disposta a pagar, pois sabia que uma experiência assim não tem preço.
Mas aí ele continuou: "Mas mesmo que a propina fosse boa, não posso te deixar ficar. Hoje em dia são as ONGs que fazem o voluntariado e mandam os turistas pra cá. E a propina que eles me pagam é muuuuuuuito boa. Por isso, desça até Pokhara e compre o seu «passaporte» na ONG para fazer voluntariado. E não se esqueça de trazer a minha propina extra." . Sinistro.
A raiva invadiu de novo a minha alma. Passaram pela minha cabeça milhões de coisas inteligentes e insultivas para lhe dizer. Respirei fundo e guardei a minha raiva para mim mesma.
Sai daquela sala nojenta com o coração pequenino. Peguei o caminho de volta para casa, com a cabeça baixa, quando o tibetano que conversou comigo antes parou na minha frente e me perguntou: "E ai? Conseguiu?", perguntou com um sorrisão no rosto.
Olhei nos seus olhos e não consegui dizer nada. Apenas chorei, chorei muito.
Ele, tadinho, ficou sem saber o que fazer. Me levou ao mesmo cafézinho e pediu um copo de água. "Vai ficar tudo bem, não se preocupe. Toma." E me deu uma foto do Dalai Lama, que segundo ouvi dizer é o presente mais precioso que se pode oferecer à alguém, dentro da cultura tibetana. Fui me acalmando e senti uma gratidão tão grande por esse povo, essas pessoas tão lindas, que me ensinaram tanto. Agradeci a ele e disse que quando sai do escritório do governo meu coração estava pequenininho. E que agora, graças à ele, com seu carinho e sincera preocupação, ele estava um pouquinho maior.
Ele, tadinho, ficou sem saber o que fazer. Me levou ao mesmo cafézinho e pediu um copo de água. "Vai ficar tudo bem, não se preocupe. Toma." E me deu uma foto do Dalai Lama, que segundo ouvi dizer é o presente mais precioso que se pode oferecer à alguém, dentro da cultura tibetana. Fui me acalmando e senti uma gratidão tão grande por esse povo, essas pessoas tão lindas, que me ensinaram tanto. Agradeci a ele e disse que quando sai do escritório do governo meu coração estava pequenininho. E que agora, graças à ele, com seu carinho e sincera preocupação, ele estava um pouquinho maior.
Na caminhada de volta ao acampamento fui dissolvendo os sentimentos ruins e relembrando toda a beleza que senti nessas montanhas.
Almocei com Dolkar e conversamos serenamente sobre a infelicidade de eu ter de partir. Sinto que a pouco e pouco nos tornamos boas amigas, apesar de culturas tão diferentes...
Depois fui à escola para me despedir das crianças e tirar fotos delas todas. Pedi aos professores que explicassem por mim que amanhã irei embora e porquê. A professora perguntou se eu queria dar a última aula do dia, com a mesma turma que eu tinha começado.
Ela entrou na sala e à medida que ia falando na língua estranha eu via a reação no rostinho de cada um e os meus olhos se encheram de lágrimas.Ela saiu e mais uma vez tenho 26 olhinhos confusos a olhar para mim. Tento conter as lágrimas que não queriam parar de cair e eles espontaneamente começam a cantar a música que lhes ensinei. Tão lindos!
Uma das meninas começou a chorar e 2 ou 3 seguiram o exemplo. Eu pedia por favor, não chorem, sorriem, estou tão feliz por vos ter conhecido, vocês são lindos e inteligentes.
Eles, claro, não entendiam metade do que eu dizia, mas o lindo Suresh entendeu que eu não queria que eles chorassem e começou a cantar ainda mais forte e a dançar.
Disse-lhes para virem para frente e cantar. Os dois primeiros foram Suresh e Tsomo, os meus preferidos dessa turma. Cantando a letra direitinho e na melodia certinha e ainda fazendo os passos da coreografia que eu ensinei no primeiro dia. Meu coração transbordou de alegria!
Eles, claro, não entendiam metade do que eu dizia, mas o lindo Suresh entendeu que eu não queria que eles chorassem e começou a cantar ainda mais forte e a dançar.
Disse-lhes para virem para frente e cantar. Os dois primeiros foram Suresh e Tsomo, os meus preferidos dessa turma. Cantando a letra direitinho e na melodia certinha e ainda fazendo os passos da coreografia que eu ensinei no primeiro dia. Meu coração transbordou de alegria!
Foi duro, muito duro e para parar com a tristeza que parecia contagiante disse para irmos lá para fora brincar de pega-pega. Foi muito divertido!
( . . . )
Não se pode prometer nada à uma criança, pois ela nunca esquece! Disse-lhes que à tarde, depois da escola, brincaria com elas, mas estava com muita dor de cabeça, de ter chorado tanto, e entretida escrevendo que nem lembrei da promessa. Não é que quando olho estou rodeada por seis crianças com um sorrisão gritando: "Play? Play?!". Tive que ir!!
Primeiro, brincamos de pega-pega dentro da escola, depois de escondidinha por todo o campo e por fim elas acabaram me mostrando os terrenos todos do campo, que é bem maior do que eu pensava!!
Em cada árvore um deles subia que nem macaco, pegava uma fruta, ainda verde e me dava. Cada hora era um que me puxava e gritava o meu nome: "Come! Come!". Num inglês fluente, como nunca ouvi nas minhas aulas, me levaram à cachoeira, à pedra gigante, ao tanque de água, ao mini templo onde me fizeram rezar.... Foi mágico!!
Quando dei por mim já era de noite, os pais brigando porque as crinças não fizeram o trabalho de casa e a minha dor de cabeça já não existia.
À caminho de casa, com Tsomo pendurada nas minhas costas, elas me fizeram parar na casa delas. Queriam que eu conhecesse os pais, tomasse chá tibetano com a mãe, mostrar fotografias...
Lindo, acolhedor, gratificante demais!
Em cada árvore um deles subia que nem macaco, pegava uma fruta, ainda verde e me dava. Cada hora era um que me puxava e gritava o meu nome: "Come! Come!". Num inglês fluente, como nunca ouvi nas minhas aulas, me levaram à cachoeira, à pedra gigante, ao tanque de água, ao mini templo onde me fizeram rezar.... Foi mágico!!
Quando dei por mim já era de noite, os pais brigando porque as crinças não fizeram o trabalho de casa e a minha dor de cabeça já não existia.
À caminho de casa, com Tsomo pendurada nas minhas costas, elas me fizeram parar na casa delas. Queriam que eu conhecesse os pais, tomasse chá tibetano com a mãe, mostrar fotografias...
Lindo, acolhedor, gratificante demais!
No fim do dia meu coração não podia estar maior e cheio de alegria!!
Em casa já, com Dolkar conversamos um pouquinho e a pouco e pouco, uma à uma, as crianças foram aparecendo por lá, umas trazendo bombons, outras 5 rupias (é tradição no Tibete dar dinheiro para quem parte para tomar um chá na caminhada...) e me dando a "khata" (um lenço branco que se coloca no pescoço quando alguém querido parte por um longo tempo).
Não consegui evitar as lágrimas de alegria que não paravam de cair. A doce Dolkar também começou a chorar. E foi tão linda me dizendo como sentia que eu era como uma irmã para ela. Depois as crianças foram indo, uma à uma também embora felizes por terem me conhecido e eu ainda mais por ter recebido o carinho e o respeito delas.
Agora já escrevo de Pokhara, depois de um looooooooongo dia de viagem (são 10h da noite, saí do campo às 6h da manhã!! Ufa...!). Estou um pouco triste por não ter podido ficar mais tempo naquele lugar abençoado e muito nostálgica da vida que estava tendo. Mas sinto meu coração pleno de amor e a minha alma um pouco mais sábia com a sabedoria que aprendi com aquele povo.
Entendo agora, meditando neste quarto na cidade, o grande aprendizado desta jornada... Não foi para eu ajudar os outros, fazendo um trabalho voluntário, me sentindo útil em um lugar onde "precisam" de mim....... Mas a grande verdade é que eu sim, fui ajudada, abraçada e acarinhada por todas essas pessoas que me amaram do jeito que eu sou, e eles sim, me ensinaram e me acolheram... eles sim fizeram o verdadeiro trabalho humanitário e não o contrário.
Grata, muito grata. Tashi delek!
Entendo agora, meditando neste quarto na cidade, o grande aprendizado desta jornada... Não foi para eu ajudar os outros, fazendo um trabalho voluntário, me sentindo útil em um lugar onde "precisam" de mim....... Mas a grande verdade é que eu sim, fui ajudada, abraçada e acarinhada por todas essas pessoas que me amaram do jeito que eu sou, e eles sim, me ensinaram e me acolheram... eles sim fizeram o verdadeiro trabalho humanitário e não o contrário.
Grata, muito grata. Tashi delek!
21.05.09 - Tibetan Settlement (Marpha, Nepal)




Que linda história. Que bom que você está compartilhando sua vivência nesse blog. Obrigado por dividir comigo suas histórias.
ReplyDeleteQue bom que você está gostando!! São histórias que marcaram mesmo a minha vida! O crescimento do ser que sou hoje!! :)))
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